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Omar Khayyam
(Séc. XI)



RUBAIS
Ouço dizer que os amantes do vinho serão condenados.
Não há verdades, mas mentiras evidentes.
Se os amantes do vinho e do amor forem para o Inferno,
deve estar vazio o Paraíso.

Estou velho.
A paixão por ti leva-me ao túmulo,
porque não cesso de encher de vinho de tâmaras esta grande taça.
A minha paixão por ti venceu a razão da minha razão
e, sem piedade, o tempo desfolha a bela rosa que eu possuía.

Podes obcecar-me, imagem de uma outra ventura.
Podeis modular as vossas encantações, vozes amorosas!
Contemplo o que escolhi e escuto a canção que me embalou.
Dizem-me: «Alá te perdoará.»
Recuso este perdão que não peço.

Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.

Porquê tanta suavidade e ternura
no começo do nosso amor?
Porquê tantas carícias e delícias, depois?
Agora, o teu único prazer é dilacerar o meu coração ...
Porquê?
Quando a minha alma pura e a tua
abandonarem os nossos corpos,
colocar-se-á um ladrilho sobre as nossas cabeças.
E, um dia, um ladrilheiro modelará as tuas cinzas e as minhas.

Vinho! O meu coração enfermo quer este remédio!
Vinho de perfume almiscarado! Vinho, cor de rosas!
Vinho, para extinguir o incêndio da minha tristeza!
Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, ó minha bem-amada!

Fala-se de um Criador ...
Não teria ele formado as 'criaturas somente para as destruir?!
Por que são feias? Quem é o responsável? Por que são belas?
Não compreendo nada.
Todos os homens gostariam de caminhar
sobre a estrada do Conhecimento.
Tal estrada - uns, procuram-na,
enquanto outros afirmam que a encontraram.
Um dia, a voz bradar-te-á: «Não há estrada nem atalho.»

Dedica às luzes da aurora o vinho da taça,
semelhante à tulipa primaveril!
Dedica ao sorriso de um adolescente o vinho da tua taça,
semelhante à sua boca.
Bebe e esquece que o punho da Dor em breve te derrubará.

Vinho! Vinho a jorros!
Que ele palpite nas minhas veias!
Que ele fervilhe na minha cabeça!
Taças ... Não fales! Tudo é mentira.
Taças ... Depressa! Eu já envelheci ...
Emanará do meu túmulo um tal aroma de vinho,
que os caminhantes ficarão embriagados!
Uma tal serenidade rodeará o meu túmulo,
que os amantes não poderão distanciar-se dele!

No turbilhão da vida, só serão felizes os homens
que se julgam sábios e os que não procuram instruir-se.
Fui debruçar-me sobre todos os segredos do universo
e regressei à minha solidão, invejando os cegos que encontrava.

Dizem-me: «Não bebas mais, Khayyam!»
Eu respondo:
Quando bebo, ouço o que me dizem as rosas, as tulipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me a minha bem-amada.

Em que reflectes, meu amigo? Nos teus antepassados?
Pó na poeira - eis o que eles são.
Pensas nos seus méritos? Deixa-me sorrir.
Toma esta ânfora e vamos beber,
escutando sem inquietação o grande silêncio do universo.

A aurora encheu de rosas a taça do céu.
Na limpidez do ar, esgota-se o canto do último rouxinol.
O aroma do vinho é mais leve.
E pensar que neste mundo há insensatos
que sonham com a glória e honrarias!
Como é sedosa a tua cabeleira, ó minha bem-amada!


(Tradução de Fernando Castro)





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