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MEU LEGADO

Deixo
minha gratidão à todos aqueles que cruzaram meu caminho, e que
até em um breve momento , me deram alguma felicidade.
Deixo
todos os sonhos de felicidade que ousei acalentar; os poucos que
puderam ser realidade, e também aqueles , que simplesmente foram
abortados.
Deixo
a frustração dos caminhos que não percorri, dos morros que
não escalei, das relvas que não amassei, dos rios e mares onde
não me banhei, dos bailes onde não valsei, dos filmes que não
assisti, dos corpos que não abracei, dos beijos que não recebi,
dos pores de sol que não percebi, da chuva onde não me molhei,
na infância que não vivi.
Deixo
como virtude o orgulho sadio, que nos faz altivos e dignos de
nossa condição humana, que preserva nosso amor-próprio e nossa
dignidade. Deixo como reconhecimento de meu maior defeito, o
orgulho que suprime a humildade, que nos dificulta a vida, e não
nos permite pedir.
Deixo
todas as emoções sentida nos olhos daqueles com quem cruzei, em
suas conquistas e fracassos, em olhares algumas vezes
apaixonados, em olhares tristonhos ou de felicidades. Deixo todas
as lágrimas de emoção que derramei por todos os que eu amei,
por muitos com quem apenas cruzei, por aqueles que me permitiram
existir, e pelos que nem conheci; por todos os personagens do
cotidiano e também os da ficção por quem um dia chorei.
Deixo
a saudades, apenas do que não vivi, do que não pude alcançar,
apesar do potencial que eu possui.
Deixo
a tristeza das vezes que me omiti, pelos erros que cometi, pelas
carências que não percebi, pela paciência que não tive, pelos
desejos e alegrias que não consegui sentir, e por todas as
pessoas que um dia eu feri.
Deixo
a certeza de que valeu a pena viver, de que muito aprendi e
alguma coisa ensinei; a certeza dos caminhos que desobstrui, do
pouco que edifiquei, dos exemplos que transmiti, da honestidade
que exerci e dos valores que pratiquei.
Deixo
a esperança de ter cumprido a missão; do reencontro depois; do
entendimento do até então inexplicável. Deixo a esperança de
ser perdoada pelos erros que eu não soube evitar, de ser
compreendida pelas minhas fraquezas e ansiedades. deixo ainda , a
esperança de ter sido um pouco amada.
Deixo
a ternura que senti no peito, e que muitas vezes foi dor, diante
do miserável que nem conheci mas desejei tocar, diante dos
esqueletos vivos que habitam o mundo, pelos psicopatas que tanto
ferem em suas inconsequencias, e por todos os perseguidos e
execrados por ódios e preconceitos.
Deixo a piedade por aqueles que
sofrem a dor do corpo ou a dor da alma, por aqueles que são
pobres no conhecimento, no entendimento, na espiritualidade, pois
creio serem estes os únicos bens que merecem ser amealhados para
a eternidade.
Deixo
o mais importante dos sentimentos, a liberdade, que me permitiu
escolher, ainda que muitas vezes errando; que me permitiu sonhar
e voar como águia nas asas da imaginação; me permitiu muitas
vezes ir além de mi mesma, e transformar momentos em eternidade;
me permitiu sonhar e fantasiar todos os meu anseios.
Por
fim deixo o amor, a certeza de ter vivido o mais intenso dos
amores; o amor que transcende a vida e a morte, o amor que nada
cobra, o amor que até dói, mas ilumina. Deixo o amor que só
ama e nada pede, que já era antes de ser, e que permanecerá
mesmo quando nada mais houver.
Suzelei Aparecida dos
Santos/Mar/1997
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